
Nada nos filmes do britânico Mike Leigh é grandioso. Seus roteiros são todos trabalhos nos detalhes, nas pequenices e nas singelezas de vidas absolutamente comuns. Seus personagens não foram calcados para ocupar postos heróicos, eles possuem a humanidade de todos nós, pobres mortais, com suas virtudes e defeitos preservados. Os filmes do diretor são, em geral, pequenas joias lapidadas com paciência e simplicidade, gemas que se tornam poderosas pela coesão de seus elementos narrativos. Nessa linha estão Segredos e Mentiras (1996), O Segredo de Vera Drake (2004) e Simplesmente Feliz (2008).
Another Year é mais um pequeno exemplar que se soma à filmografia do diretor. O filme conta a história de Tom (Jim Broadbent) e Gerri (Ruth Sheen), um casal de meia-idade que vive um casamento sólido e feliz. A referência do título diz respeito ao período que o filme compreende: um ano. E, não por acaso, seu título original é Another Year, ou seja, não se trata de um ano extraordinário, e sim de um ano como outro qualquer, no qual eles recebem as visitas de familiares e amigos em sua casa, no qual acompanham problemas pessoais alheios e dão conselhos para as mais diversas situações.
Leigh optou por dividir a história de acordo com as estações, elencando alguns dos episódios mais significativos do ano do casal (vale reforçar que são episódios significativos na vida daqueles personagens, mas não grandiosos aos olhos do espectador). Na primavera, por exemplo, Tom e Gerri receberam a visita de Mary (Lesley Manville), uma amiga de longa data que enfrenta uma crise de meia-idade agravada pelo fato de ela ter sido abandonada pelo marido. Depois, recebem Ken (Peter Wight), amigo também antigo que trava uma luta contra o alcoolismo e busca se salvar encontrando um novo amor. A reboque vem o filho Joe (Oliver Maltman), que apresenta à família sua nova namorada. Depois, os protagonistas terão que dar suporte a Ronnie (David Bradley), irmão de Tom, que perdeu a mulher recentemente.
As histórias individuais de Mary, Ken, Joe e Ronnie convergem para o ponto principal do filme, a vida em conjunto de Tom e Gerri. É sob o prisma do casamento que todas essas histórias são analisadas e que, por vezes, vão se cruzar para falar do tema central do filme: o convívio. É no cotidiano que reside a matéria-prima do cinema de Leigh. E é justamente por isso que seus diálogos são bem trabalhados em um roteiro que se estrutura a partir das conversas dos personagens e dos conselhos que o casal dá a cada um dos visitantes que recebe.
Para sustentar toda essa quantidade de discursos, é preciso um elenco coeso e capaz de atuar em gestos simples. Não há como destacar uma interpretação em particular, ainda que o filme conte com o ótimo ator Jim Broadbent. Estão todos muito adequados a seus papéis e às histórias de vida de seus personagens, tornando o filme realista e comovente.
O que fica mais claro em Another Year é a capacidade do diretor em transformar o trivial em uma boa história. Contrastando a felicidade de Tom e Gerri com os infortúnios dos seus visitantes, Leigh aborda temas como o isolamento, o envelhecimento e a inexorabilidade do fim (seja de um relacionamento ou da vida). Com isso, ele transforma o filme em um retrato bastante honesto da sociedade em que vivemos atualmente e dos problemas que ela nos obriga a enfrentar. E o maior mérito do diretor é conseguir abordar a banalidade sem ser enfadonho, imprimindo na tela personagens que poderiam ser os próprios espectadores.
Foto: Simon Mein (Focus Features)
Another Year é mais um pequeno exemplar que se soma à filmografia do diretor. O filme conta a história de Tom (Jim Broadbent) e Gerri (Ruth Sheen), um casal de meia-idade que vive um casamento sólido e feliz. A referência do título diz respeito ao período que o filme compreende: um ano. E, não por acaso, seu título original é Another Year, ou seja, não se trata de um ano extraordinário, e sim de um ano como outro qualquer, no qual eles recebem as visitas de familiares e amigos em sua casa, no qual acompanham problemas pessoais alheios e dão conselhos para as mais diversas situações.
Leigh optou por dividir a história de acordo com as estações, elencando alguns dos episódios mais significativos do ano do casal (vale reforçar que são episódios significativos na vida daqueles personagens, mas não grandiosos aos olhos do espectador). Na primavera, por exemplo, Tom e Gerri receberam a visita de Mary (Lesley Manville), uma amiga de longa data que enfrenta uma crise de meia-idade agravada pelo fato de ela ter sido abandonada pelo marido. Depois, recebem Ken (Peter Wight), amigo também antigo que trava uma luta contra o alcoolismo e busca se salvar encontrando um novo amor. A reboque vem o filho Joe (Oliver Maltman), que apresenta à família sua nova namorada. Depois, os protagonistas terão que dar suporte a Ronnie (David Bradley), irmão de Tom, que perdeu a mulher recentemente.
As histórias individuais de Mary, Ken, Joe e Ronnie convergem para o ponto principal do filme, a vida em conjunto de Tom e Gerri. É sob o prisma do casamento que todas essas histórias são analisadas e que, por vezes, vão se cruzar para falar do tema central do filme: o convívio. É no cotidiano que reside a matéria-prima do cinema de Leigh. E é justamente por isso que seus diálogos são bem trabalhados em um roteiro que se estrutura a partir das conversas dos personagens e dos conselhos que o casal dá a cada um dos visitantes que recebe.
Para sustentar toda essa quantidade de discursos, é preciso um elenco coeso e capaz de atuar em gestos simples. Não há como destacar uma interpretação em particular, ainda que o filme conte com o ótimo ator Jim Broadbent. Estão todos muito adequados a seus papéis e às histórias de vida de seus personagens, tornando o filme realista e comovente.
O que fica mais claro em Another Year é a capacidade do diretor em transformar o trivial em uma boa história. Contrastando a felicidade de Tom e Gerri com os infortúnios dos seus visitantes, Leigh aborda temas como o isolamento, o envelhecimento e a inexorabilidade do fim (seja de um relacionamento ou da vida). Com isso, ele transforma o filme em um retrato bastante honesto da sociedade em que vivemos atualmente e dos problemas que ela nos obriga a enfrentar. E o maior mérito do diretor é conseguir abordar a banalidade sem ser enfadonho, imprimindo na tela personagens que poderiam ser os próprios espectadores.
Foto: Simon Mein (Focus Features)

