quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Another Year



Nada nos filmes do britânico Mike Leigh é grandioso. Seus roteiros são todos trabalhos nos detalhes, nas pequenices e nas singelezas de vidas absolutamente comuns. Seus personagens não foram calcados para ocupar postos heróicos, eles possuem a humanidade de todos nós, pobres mortais, com suas virtudes e defeitos preservados. Os filmes do diretor são, em geral, pequenas joias lapidadas com paciência e simplicidade, gemas que se tornam poderosas pela coesão de seus elementos narrativos. Nessa linha estão Segredos e Mentiras (1996), O Segredo de Vera Drake (2004) e Simplesmente Feliz (2008).

Another Year é mais um pequeno exemplar que se soma à filmografia do diretor. O filme conta a história de Tom (Jim Broadbent) e Gerri (Ruth Sheen), um casal de meia-idade que vive um casamento sólido e feliz. A referência do título diz respeito ao período que o filme compreende: um ano. E, não por acaso, seu título original é Another Year, ou seja, não se trata de um ano extraordinário, e sim de um ano como outro qualquer, no qual eles recebem as visitas de familiares e amigos em sua casa, no qual acompanham problemas pessoais alheios e dão conselhos para as mais diversas situações.

Leigh optou por dividir a história de acordo com as estações, elencando alguns dos episódios mais significativos do ano do casal (vale reforçar que são episódios significativos na vida daqueles personagens, mas não grandiosos aos olhos do espectador). Na primavera, por exemplo, Tom e Gerri receberam a visita de Mary (Lesley Manville), uma amiga de longa data que enfrenta uma crise de meia-idade agravada pelo fato de ela ter sido abandonada pelo marido. Depois, recebem Ken (Peter Wight), amigo também antigo que trava uma luta contra o alcoolismo e busca se salvar encontrando um novo amor. A reboque vem o filho Joe (Oliver Maltman), que apresenta à família sua nova namorada. Depois, os protagonistas terão que dar suporte a Ronnie (David Bradley), irmão de Tom, que perdeu a mulher recentemente.

As histórias individuais de Mary, Ken, Joe e Ronnie convergem para o ponto principal do filme, a vida em conjunto de Tom e Gerri. É sob o prisma do casamento que todas essas histórias são analisadas e que, por vezes, vão se cruzar para falar do tema central do filme: o convívio. É no cotidiano que reside a matéria-prima do cinema de Leigh. E é justamente por isso que seus diálogos são bem trabalhados em um roteiro que se estrutura a partir das conversas dos personagens e dos conselhos que o casal dá a cada um dos visitantes que recebe.

Para sustentar toda essa quantidade de discursos, é preciso um elenco coeso e capaz de atuar em gestos simples. Não há como destacar uma interpretação em particular, ainda que o filme conte com o ótimo ator Jim Broadbent. Estão todos muito adequados a seus papéis e às histórias de vida de seus personagens, tornando o filme realista e comovente.

O que fica mais claro em Another Year é a capacidade do diretor em transformar o trivial em uma boa história. Contrastando a felicidade de Tom e Gerri com os infortúnios dos seus visitantes, Leigh aborda temas como o isolamento, o envelhecimento e a inexorabilidade do fim (seja de um relacionamento ou da vida). Com isso, ele transforma o filme em um retrato bastante honesto da sociedade em que vivemos atualmente e dos problemas que ela nos obriga a enfrentar. E o maior mérito do diretor é conseguir abordar a banalidade sem ser enfadonho, imprimindo na tela personagens que poderiam ser os próprios espectadores.


Foto: Simon Mein (Focus Features)

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Get Low



Get Low surgiu de forma bastante curiosa. O roteirista Chris Provenzano (um dos que escrevem a série Mad Men) ouviu de um amigo a história do avô dele, um agente funerário que foi responsável por organizar uma festa-funeral cujo homenageado ainda estava vivo. Se o inusitado por si só já renderia um filme, Provenzano, em parceria com C. Gaby Mitchell (que escreveu Diamante de Sangue), colocou alguns elementos a mais para dar maior dramaticidade.

Assim nasceu Felix Breazale (Robert Duvall), um homem amargurado por um erro do passado, cuja personalidade é difícil de ser precisada dado o distanciamento que ele mantém da sociedade. Com isso, só faz crescer na cidade uma reputação sinistra, que, ao mesmo tempo que desperta o medo nas pessoas, atrai a curiosidade. Morando nas montanhas do Tennessee do final da década de 1930, Bush - como Felix é conhecido - decide antecipar seu funeral para enquanto ele ainda vive, transformando-o numa festa.

Mas toda festa que se preze precisa de convidados. E, para que as pessoas compareçam, o ermitão resolve fazer uma rifa que dará ao vencedor o direito de ficar com as terras que lhe pertenciam em vida. Faço aqui um parênteses: a festa aconteceu de fato e foi manchete dos jornais da época, tendo também ampla cobertura com fotos na revista Life. A rifa foi realizada e as propriedades de Felix foram dadas ao sorteado após sua morte, poucos anos depois.

A questão central do filme é a proximidade da morte e a busca de um homem pelo perdão. Por mais que tivesse se punido com a reclusão de quarenta anos após a tragédia, Felix ainda não se acreditava perdoado e sentia que precisava disso para, então, morrer em paz, como se diz. A festa-funeral foi a maneira encontrada para que ele pudesse contar sua história, para que as pessoas pudessem entender suas motivações.

Para viver um homem dessa natureza, foi escalado Robert Duvall, capaz de conferir ao personagem toda a dureza necessária e - ao longo da projeção - ir dotando-o de uma humanidade que parecia inexistente. O trabalho do ator é fantástico, trabalhando de forma bastante interessante as nuances através da fala, já que os gestos corporais permanecerão contidos.

Duvall tem ainda ótimos parceiros de cena. Sissy Spacek vive Mattie Darrow, uma mulher que retorna à cidade anos depois dos acontecimentos e que tem relação com o passado de Felix (não darei mais detalhes para não revelar o segredo que o protagonista esconde). E Bill Murray vive o agente funerário Frank Quinn, um sujeito que precisa realizar a festa-funeral por causa das contas de sua empresa, mas que não abandona o medo provocado pela fama de Felix.

Foram precisos sete anos até que o filme finalmente saísse do papel. Com um orçamento modesto e rodado em apenas 25 dias pelo ex-diretor de fotografia Aaron Schneider, Get Low teve uma boa recepção no festival de Sundance. Não é um grande filme, daqueles arrebatadores, mas é uma boa e pequena história sobre pessoas, como bem definiu Duvall.


Foto: Sam Emerson (Sony Pictures)

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Conviction



O fato de ser baseado em uma história real garantiria mais força ao filme dirigido por Tony Goldwyn, que comandou o fraco Um Beijo a Mais e alguns episódios da série Dexter. Conviction, nova empreitada do diretor e ator, acompanha a saga de Betty Anne Waters (Hilary Swank) para livrar seu irmão Kenny (Sam Rockwell) da cadeia.

Ele foi acusado de um crime que supostamente não teria cometido, mas a defensoria pública alegou dificuldades para representá-lo no caso, que terminou com sua condenação à prisão perpétua, sem direito à condicional. A Betty coube conciliar sua vida de mãe com a vida acadêmica: ela decidiu cursar a faculdade de direito para reabrir o proceso de seu irmão, enfrentar a promotoria e livrá-lo da sentença.

Desde Menina de Ouro, a atriz Hilary Swank não apresentava um desempenho tão bom nas telas, ainda que tenha ocupado o papel de protagonista em outras produções, como P.S. Eu te Amo e Amelia. Por seu porte físico e sua aparência mais comum, quando comparada às divas que Hollywood gosta de produzir, Hilary se sai melhor em papéis de mulheres fortes, mais donas de seu próprio destino. Assim é Betty, que não desistiu de inocentar seu irmão nem diante da crise familiar que se instalou em sua casa, quando os filhos - cansados da obsessão da mãe por reparar um erro da justiça - decidiram morar com o pai.

Mas a ótima atuação da atriz não é capaz de mascarar a fragilidade do roteiro. Construído de forma bastante esquemática e apostando nos flashbacks, uma fórmula já um tanto desgastada, a roteirista Pamela Gray não constrói grandes cenas de confronto. As dificuldades por que Betty passou foram grandes, mas no filme elas aparecem como tendo sido facilmente superadas, não dando ao espectador suas reais dimensões.

Por mais que Conviction tenha sido baseado em fatos verídicos e que não houvesse qualquer intenção de alterar o que aconteceu, um roteiro mais caprichado poderia ter investido melhor na carga dramática de sua protagonista e em deixar desperta a dúvida quanto ao seu desfecho. Em algumas poucas cenas, a interpretação de Sam Rockwell nos faz crer que Kenny pode não ser inocente, mas essa possibilidade é veementemente refutada logo em seguida.

Como não trabalha as nuances da trama, Conviction - título original da obra - não consegue alcançar a força de um thriller de tribunal, uma das especialidades de Hollywood. E, com tudo muito raso, claro e objetivo, não há espaço para que o espectador se identifique mais profundamente com os personagens, o que chega a ser um pecado pelo fato de um deles ter sido condenado injustamente à prisão perpétua.

Se não chega a ser compensada com as boas atuações do par principal - e há também uma participação da cada vez melhor Melissa Leo (Rio Congelado e O Vencedor) - a fragilidade do roteiro não chega a tornar o filme chato, apenas o deixa bastante previsível. A sensação que fica para o espectador é de já ter visto Conviction, por mais que seja a primeira vez. Optou-se por ignorar as possibilidades, num excesso de convicção que não deixou o filme ir além.


Foto: Ron Batzdorff (Fox)